
Postos de combustível guardam grandes volumes de gasolina, etanol e diesel em tanques enterrados, e é justamente o que não se vê que preocupa o órgão ambiental: um vazamento pequeno e contínuo pode contaminar o solo e a água subterrânea por muito tempo antes de aparecer na superfície. Por isso o licenciamento de postos é um dos mais regulados. Este guia resume o que a CONAMA 273 estabelece, como funciona o monitoramento com poços e quais análises costumam ser pedidas, e mostra o que fazer quando surgem indícios de contaminação.
O que a CONAMA 273 estabelece
A Resolução CONAMA nº 273, de 29 de novembro de 2000, trata da prevenção e do controle da poluição em postos de combustíveis e serviços. Ela tornou obrigatório o licenciamento ambiental da localização, instalação, ampliação e operação de postos revendedores e de sistemas de armazenamento de derivados de petróleo e outros combustíveis. A Resolução CONAMA nº 319/2002 alterou alguns de seus dispositivos.
Alguns pontos úteis para quem opera um posto:
- entre os estudos exigidos no licenciamento está a caracterização hidrogeológica da área, com o sentido de fluxo das águas subterrâneas, as áreas de recarga e a localização de poços de captação;
- para instalações em operação, a resolução prevê a apresentação de certificado do INMETRO, ou de entidade por ele credenciada, atestando a inexistência de vazamentos;
- o licenciamento é conduzido pelo órgão ambiental competente (no estado, a SEMAD, ou a secretaria municipal de meio ambiente quando o município é credenciado).
O texto completo está na Resolução CONAMA nº 273/2000, e as exigências detalhadas variam conforme o órgão licenciador.
Por que monitorar solo e água subterrânea
Vazamentos em tanques, tubulações, conexões e bombas não aparecem a olho nu. O solo absorve o combustível, e ele pode alcançar o lençol freático e se deslocar com o fluxo da água subterrânea. O monitoramento serve para detectar o problema cedo, quando a ação é mais simples e mais barata, e para comprovar ao órgão ambiental que a operação não está contaminando o entorno.
Há ainda um aspecto prático: em um terreno de posto, o histórico de qualidade da água subterrânea pesa em operações de venda, arrendamento, financiamento e encerramento da atividade. Quem monitora tem documentação para demonstrar o estado da área.
Os poços de monitoramento
O monitoramento da água subterrânea é feito por poços instalados ao redor das fontes potenciais, como a área dos tanques e das bombas, e posicionados conforme o sentido do fluxo da água subterrânea. Em geral, usam-se poços a montante (referência) e a jusante (onde uma contaminação apareceria).
A referência técnica de projeto e construção é a ABNT NBR 15495-1, e há normas estaduais que a citam expressamente nas exigências de licenciamento de postos. Em Goiás, a quantidade, a localização e o padrão construtivo dos poços são definidos pelo órgão licenciador. Confirme com ele o que vale para o seu posto. Mais detalhes no artigo sobre poço de monitoramento ambiental.
Quais análises costumam ser pedidas
Como o contaminante típico de um posto é o combustível, as análises se concentram em hidrocarbonetos. Nos estudos de áreas de postos, os parâmetros mais citados são:
- BTEX: benzeno, tolueno, etilbenzeno e xilenos, compostos voláteis presentes na gasolina;
- HPA: hidrocarbonetos policíclicos aromáticos;
- TPH: hidrocarbonetos totais de petróleo.
Os resultados em água subterrânea e solo são comparados com os valores orientadores da Resolução CONAMA nº 420/2009 (cujo Anexo II traz a lista para solos e águas subterrâneas) e com as exigências do órgão licenciador. Em campo, também se registram o nível da água e a eventual presença de produto em fase livre, ou seja, combustível sobrenadante na água do poço, que é um indício forte de vazamento e pede ação imediata.
A lista exata de parâmetros vem da licença e do estudo ambiental do posto. Ao contratar o laboratório, pergunte se o escopo cobre os hidrocarbonetos que o seu órgão exige, e se a coleta é feita por equipe técnica com cadeia de custódia e métodos de purga adequados (ABNT NBR 15847).
E se aparecerem indícios de contaminação
Um resultado acima do limite ou a presença de produto em fase livre não é o fim da linha, mas exige método. O caminho típico, descrito na CONAMA 420 e nas normas ABNT NBR 15515, segue estas etapas:
- Avaliação preliminar, com histórico e inspeção da área;
- Investigação confirmatória, com sondagens, amostras de solo e água subterrânea e comparação com os valores de investigação;
- Investigação detalhada e avaliação de risco, se a contaminação for confirmada;
- Intervenção e monitoramento, com ações para eliminar o perigo ou reduzir o risco a níveis toleráveis.
Cada etapa é explicada no artigo sobre passivo ambiental e CONAMA 420. A comunicação ao órgão ambiental e os prazos seguem as regras do licenciamento do seu posto. Se o terreno está em negociação, a avaliação preliminar também protege o comprador, tema do artigo sobre due diligence ambiental na compra de terreno.
Rotina que evita problema
- Calendário de coletas alinhado à periodicidade da licença, com margem antes do vencimento;
- Histórico organizado de laudos, com os mesmos pontos e parâmetros, para comparar a evolução;
- Manutenção dos poços: tampa, laje de proteção e identificação em ordem, sem entrada de água superficial;
- Controle de estanqueidade do sistema de armazenamento, conforme as exigências aplicáveis;
- Plano de resposta para o caso de um resultado fora do limite, com responsáveis definidos.
Como a Conágua pode ajudar
A Conágua faz amostragem de solo e de água subterrânea e as análises laboratoriais que sustentam o monitoramento, com medição de nível estático e laudo técnico, em laboratório com acreditação INMETRO (CRL 0239). A coleta é feita no local por equipe e frota próprias, com cadeia de custódia. Para postos, o ponto de partida é conversar com a nossa equipe para definir o plano de amostragem e confirmar os parâmetros de hidrocarbonetos exigidos pelo seu órgão licenciador.
Perguntas frequentes
Todo posto precisa de poço de monitoramento?
Depende do licenciamento. O órgão ambiental define, conforme o projeto, o estudo hidrogeológico e o risco, se haverá poços, quantos e onde. Confirme com o órgão que licencia o seu posto.
Com que frequência devo monitorar?
A que consta na licença ou no plano de monitoramento aprovado. Se houve indício de contaminação, o órgão pode exigir uma frequência maior.
O que é fase livre?
É a presença de combustível em forma de camada sobrenadante na água do poço. É um indício forte de vazamento e costuma exigir comunicação e medidas imediatas, conforme as regras do órgão licenciador.
Preciso do certificado de estanqueidade?
A CONAMA 273 prevê, para instalações em operação, certificado do INMETRO ou de entidade por ele credenciada atestando a inexistência de vazamentos. Confirme com o seu órgão licenciador o que vale para o seu caso.
Posso coletar a água do poço por conta própria?
A coleta exige técnica (nível, purga, preservação, ordem de coleta) e cadeia de custódia. Uma coleta feita sem esses cuidados pode gerar um laudo questionável, com risco de recoleta.
As regras citadas neste artigo são as publicadas pelos órgãos oficiais até novembro de 2026. Normas e exigências estaduais e municipais variam: confirme a versão vigente com o órgão licenciador do seu posto e com o seu responsável técnico.
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